Lembro o que o tempo levou,
Lamento o que não sustentei;
Das mãos que o amor nos juntou
E eu mesmo, insano, soltei.
De uma dupla séria e dedicada,
Manhãs inteiras em ação,
No consultório — rotina aplicada,
Critérios, métodos, precisão;
Com vidros claros e chão reluzente,
Os metais e esmaltes ficam um primor,
O ar com cheiro consistente
De assepsia com extremo rigor.
Lembro de tardes no quarto,
De livros abertos também ao chão,
Disciplinas do teu curso
Da UFAC em discussão;
Teoria e prática lado a lado,
De conceitos postos à luz,
Eu opinando entre mestre e discípula, animado
Sobre o que a consciência forma e seduz.
Da arte de ensinar que aprendeste,
Vi nascer tua verdadeira vocação;
E procurei ser aquele que te incentiva
Confiante na tua missão.
Nas experiências que viveste,
Nos estágios, na formação,
Procurei ser admirador mais atento
Naquela tua firme evolução.
Te mostrei a arte que eu amava,
Músicas, filmes, poesia;
E enquanto o mundo gritava,
Sincronizávamos nossa cultura em perfeita harmonia.
Se alguma sombra te envolvia,
De dogmas frios, severos,
Eu tentava te abrir o dia
Com versos simples, mas sinceros.
Não fui inteiramente "O" parceiro,
Mas procurei ser abrigo e calor;
Entre erros, fui verdadeiro
No modo meio burro de amor.
Se em ti deixei alguma marca
Que seja branda e sem dor;
Que não se recorde de mim só as falhas,
Mas no melhor que tentei ter — o amor.
Das contemporâneas sombras tento esquecer,
Para que a mente um dia não me traia;
Para que nos dias em que o sofrer
Não me soprem abismos danosos à praia.
Mas prendo o fôlego e lembro:
Juntos rimos, vencemos, lutamos;
E se hoje eu quebro por dentro,
Houve um tempo em que juntos voamos.
Perdi o que era mais belo —
E disso nunca me eximo;
Mas saber que segues crescendo
É um consolo que estimo.
Se não fui homem completo,
Sei que um dia fui parte da tua estação;
E guardo, ainda desperto,
A memória do que um dia fomos —
E do que ficou no coração.

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